Um hino às queixinhas

As crianças não bufam, não dão com a língua nos dentes, nem se chibam: elas simples e carinhosamente fazem queixinhas

Uma das mais notáveis capacidades infantis é a de fazer queixinhas. As crianças sabem fazer queixinhas de forma exemplar, são únicas a praticar esta arte. Fazem queixinhas com transparência, sem medo, com clareza e até com orgulho. É de tal forma inspiradora esta forma que as crianças encontraram de se queixarem dos outros que até o nome é queridinho: queixinhas.
As crianças não bufam, não dão com a língua nos dentes, nem se chibam: elas simples e carinhosamente fazem queixinhas. Fazem queixas queridinhas, com inocenciazinha e com beicinho. Fazem queixinhas porque querem justiçazinha.
Por isso, por uma questão de justiça, as queixinhas infantis são feitas com orgulho: as crianças acham que têm o dever de fazer queixinhas, não é uma questão de capricho, é uma questão de direito. Se ela apanhou injustamente um estalo do irmão mais velho ou se o colega da escola lhe chamou caixa de óculos, nada mais lógico do que fazer queixinhas. É preciso, é mesmo urgente, que o mundo saiba ou que alguém com poder saiba o que se está a passar. Nós queixamo-nos dos assaltos, elas queixam-se do recreio da escola e dos irmãos mais velhos, mas a motivação é a mesma.
As queixinhas têm ainda outra virtude: são sempre feitas às claras, são frontais. As crianças não enviam emails anónimos, não criam blogues com pseudónimos nem se refugiam atrás telefonemas anónimos ou de um nome estúpido como "garganta funda". Nada disso. Quando querem fazer uma queixinha, fazem-na aos gritos. Choram, apontam o dedo, esperneiam e denunciam a ocorrência sem rodeios ou com medo.
Uma queixinha vem sempre acompanhada por alguém de carácter. É impossível ser queixinhas e ser cobarde. Aliás, cobardia é não fazer queixinhas, é ter medo de denunciar, é ter medo de tramar o próximo. Uma criança não tem medo das consequências, ela quer mesmo que o irmão fique o fim-de-semana de castigo e, se possível, que o coleguinha seja expulso da escola. Sem medo.
Uma criança também não diz que ouviu dizer. Não há queixinhas baseadas no "ouvi dizer que o Zé comeu o chocolate da avó". Não, uma queixinha implica que o próprio autor tenha visto o Zé a roubar o chocolate e se o Zé comeu o chocolate da avó todos os outros também deviam ter comido o chocolate da avó. Uma queixinha tem provas concretas, tem testemunhas oculares, tem até documentos se for preciso. Não são meras denúncias, são factos. O autor da queixinha é a testemunha principal e a vítima. Uma criança não é fonte anónima, é a própria da notícia.
No mundo infantil as queixinhas são uma arma, são muitas vezes a única arma que as crianças têm, e elas aprendem a usá-la mesmo antes de aprenderem a falar.
Até que aparecemos nós, os pais, os professores, os tios, os adultos em geral. E o que é que dizemos? Dizemos que fazer queixinhas é feio, que quem fizer queixinhas fica de castigo, que quem faz queixinhas é mariquinhas e que fazer queixinhas é uma cobardia. Ou seja, dizemos tudo ao contrário.
Ora as crianças ficam assim sem armas, sujeitas à lei do mais forte e totalmente desprotegidas. E o que fazem elas? Tornam-se bufos, crescem e passam a fontes. E em vez de queixinhas passam a chibar-se e assumem a cobardia dos pseudónimos ou dos telefonemas anónimos. As queixinhas são antes de mais um pedido de ajuda. Não ouvir e até proibir que se façam é cobardia nossa.

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