Spínola, o Tratamento dos Negros na Guiné Portuguesa e a Insustentabilidade das Contradições Sobre a Guerra do Ultramar

08-08-2013 11:03

Spínola, o Tratamento dos Negros na Guiné Portuguesa e a Insustentabilidade das Contradições Sobre a Guerra do Ultramar

 
Na foto, vê-se o General Costa Gomes à direita de Spínola, falando com milícias guineenses. Foto do francês Pierre Fargeas (técnico que fazia a manutenção dos helis AL III, na BA 12, Bissalanca), gentilmente enviada pelo câmara Jorge Félix (ex-Alf Mil Pil Heli, BA12, Bissalanca, 1968/70).
 
 
 
 
Algarvio, ex-comunista, homem de origens humildes, apreciador de um bom tinto, veterano da Guerra do Ultramar e um amigo de longa data. Era esta a personagem que eu tinha pela frente num jantar para o qual fui convidado no verão de 2012, já lá vai um ano...
 
Como é costume, o meu amigo não demorou até começar a falar da Guerra do Ultramar e eu, bicho curioso, nunca perco uma oportunidade para tentar obter um pouco mais de informação, mesmo que esta seja irrelevante e sem interesse algum (há quem chame a isto uma "loucura" e "obsessão" típica de muitos formados em História, eu, ao invés, prefiro chamar-lhe apenas "amor à arte").
 
Lenta, mas metódicamente, o meu amigo (o vinho fabricado por ele próprio ajudou...) vai debitando conversa sobre a guerra do Ultramar. Fala-me de como uma das piores coisas para ele na Guiné Portuguesa era a falta de legumes e a terrível prisão de ventre que isso provocou nele e em mais alguns camaradas de armas:
 
"Nós só comíamos arroz e mais arroz, eu já tinha as tripas coladas de tanto comer arroz. Só conseguimos resolver a situação quando finalmente nos entregaram uma encomenda de sementes de Portugal para fazer uma horta onde plantávamos um pouco de tudo. A partir daí nunca mais tivemos prisão de ventre."
 
Ao fim de cerca de uma hora neste tipo de conversa, eu pergunto-lhe se tinha tido a oportunidade de conhecer mais de perto o General Spínola na Guiné?
 
"O Spínola? Estive muitas vezes com ele." responde-me prontamente.
 
Então e qual era a abordagem de Spínola em relação aos indígenas da Guiné Portuguesa?
 
"O Spínola queria criar a amizade entre pretos e brancos. Ele não autorizava que se maltratassem os pretos e se ele soubesse que um soldado branco dava um pontapé num preto, ele castigava-o. Um soldado branco que maltratasse um preto na Guiné estava lixado se o Spínola soubesse."
 
Isto foi no essêncial, aquilo que mais me surpreendeu. Por um lado, porque Spínola era um militar da direita nacionalista e o meu amigo é um ex-PCP. Ouvir um ex-PCP a falar de forma tão positiva e a defender o seu antigo General com tanto afinco foi algo que francamente me deixou surpreso e confuso ao mesmo tempo.
 
Esta confusão agrava-se devido ao facto de existirem inúmeras informações contraditórias que eu tenho detectado nas memórias que vou recolhendo dos soldados da Guerra do Ultramar.
 
Por exemplo, ainda na semana passada um outro veterano de guerra (este é de Évora e andou em Moçambique) jurava-me a pés juntos que Spínola era um supremacista branco e que ele tem a certeza absoluta a 200% de que houve massacres propositadamente cometidos pela tropa portuguesa durante a guerra. Um dos massacres por si referidos foi o Massacre de Wiriyamu e que ele me jura ter a certeza absoluta sobre a sua ocorrência, mas esclareceu-me que a culpa não foi do governo central em Lisboa, mas sim dos militares da zona em que ocorreu o massacre que levaram a cabo o mesmo como uma "vingança" e uma "lição" devido à morte de alguns camaradas seus.
 
Depois existem aqueles veteranos da guerra que afirmam que nunca existiram massacres nenhuns, nunca existiu injustiça nenhuma cometida por brancos contra negros durante a Guerra do Ultramar. Nada.
 
Ora, esta tremenda contradição de informações revela duas coisas muito simples:
 
1º - Uma ou até ambas as partes estão a mentir.
 
2º - Não é possível fazer uma história credível da Guerra do Ultramar baseada nas memórias dos antigos combatentes da mesma. Pelo contrário, seria mais fácil elaborar uma história das "histórias" da Guerra do Ultramar.
 
Será portanto extremamente dificíl para os historiadores no futuro conseguirem elaborar uma história justa e fiel aos factos sobre a Guerra do Ultramar. Tal tarefa será épica no mínimo...
 
Décadas de propaganda ideológica de ambas as partes, mentiras e falsificações, deram origem ao caos que está agora à vista de todos. Tentar encontrar a verdade sobre alguns acontecimentos da Guerra do Ultramar é como tentar encontrar uma agulha num palheiro às escuras.
 
Precisamente por este motivo é que eu costumo dizer que a história contemporânea pode-se comparar a um campo minado e é aos historiadores com mais coragem e audácia engenhosa que compete encontrar as "minas", desmontando assim as mentiras e repondo a verdade. E cuidado porque estas mentiras são mais do que muitas...
 
Em relação ao meu amigo que andou ao serviço da Pátria na Guiné Portuguesa, este não se tornou comunista por convicção, mas porque era a "moda da época" e uma vez iniciada a loucura do PREC, acabou por se afastar da demência revolucionária devido ao facto de nas suas palavras estar: "a ver coisas que não gostava de ver."
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