O Sol nasce para Akhenaton (Parte I)

28-07-2013 12:31

O Sol nasce para Akhenaton (Parte I)

O pro­grama Ancient Aliens é conhe­cido por defen­der que rea­li­za­ções anti­gas da Humanidade – das Grandes Pirâmides aos cír­cu­los de pedra de Stonehenge – não teriam sido pos­sí­veis sem o auxí­lio de extraterrestres.

Assim se faz dinheiro à conta da ignorância e da mentira

Especialistas como Erich von Däniken e o seu men­tor, Giorgio A. Tsoukalos, vis­lum­bram os nos­sos ante­pas­sa­dos como meros maca­cos sofis­ti­ca­dos que esten­diam as mãos para rece­ber de visi­tan­tes extra­ter­res­tres uma dádiva em forma de amen­doins tecnológicos.

Quando há dias pas­sei pelo History Channel e vi uma está­tua de Akhenaton, pen­sei inge­nu­a­mente que o canal fizera jus ao seu nome com um bom docu­men­tá­rio sobre o faraó.

Fiquei logo espe­cado diante do tele­vi­sor, pois Akhenaton é um mis­té­rio den­tro do mis­té­rio que é o Antigo Egito.

Afinal não era um docu­men­tá­rio comen­tado por egip­tó­lo­gos, arqueó­lo­gos ou his­to­ri­a­do­res, mas os nos­sos velhos conhe­ci­dos do Ancient Aliens a oferecerem-nos a sua deli­rante ver­são sobre quem foi real­mente o faraó pros­crito e surpreendendo-nos com a sua mono­lí­tica pers­pi­cá­cia: um ser extraterrestre!

AkhenatonQue outra expli­ca­ção pode­ria haver para o facto de ter sido repre­sen­tado como uma espé­cie de her­ma­fro­dita de crâ­nio alon­gado e olhos exa­ge­ra­da­mente ras­ga­dos, como os extra­ter­res­tres que vemos nos fil­mes de fic­ção científica?

O facto de as refe­rên­cias a Akhenaton terem sido apa­ga­das dos monu­men­tos era tam­bém um sinal de que se fizera um esforço para «enco­brir» a sua ver­da­deira ascendência.

Este epi­só­dio de Ancient Aliens chamava-se «Alienígenas: Factos enco­ber­tos», pelo que achei nor­mal que, a dado ponto, os «teó­ri­cos» do pro­grama tenham tido a neces­si­dade de jus­ti­fi­car o título.

A teo­ria dos extra­ter­res­tres não deixa de ser inte­res­sante, pois per­mite aos auto­res do Ancient Aliens expli­car, de uma assen­tada, todos os mis­té­rios e mara­vi­lhas da Antiguidade que não se pre­o­cu­pa­ram em conhecer.

 

O rei solar

Se não fazem ideia das cir­cuns­tân­cias que leva­ram os artis­tas a repre­sen­tar a famí­lia real daquela forma, se não sabem o que foi o período Amarna na his­tó­ria do Antigo Egito e por que motivo o nome do faraó foi apa­gado dos monu­men­tos com um zelo sacer­do­tal, a expli­ca­ção ali­e­ní­gena torna-se quase plausível.

Duvido que a nossa noção moderna de um ser de outro pla­neta fizesse sen­tido para os anti­gos egíp­cios, mas há que dar a mão à pal­ma­tó­ria ao Ancient Aliens: se Akhenaton tivesse vivido numa soci­e­dade em que a pos­si­bi­li­dade de vida extra­ter­res­tre fosse tema fami­liar de con­versa, o faraó teria sido o alvo número 1 da mexe­ri­quice intergaláctica.

Foto: Thomas Coex

Estátua de Akhenaton exposta em Paris (Foto: Thomas Coex)

A não ser que se seja um «teó­rico» do Ancient Aliens, são neces­sá­rios mui­tos anos de estudo para se tor­nar um arqueó­logo, mais ainda quando se deseja uma espe­ci­a­li­za­ção no estudo da his­tó­ria do Antigo Egito.

Nem déca­das de estu­dos e inves­ti­ga­ções, con­tudo, têm sido sufi­ci­en­tes para que os pró­prios egip­tó­lo­gos se ponham de acordo sobre o que foi a vida, a per­so­na­li­dade e o des­tino do enig­má­tico Akhenaton. Uma som­bra enorme obs­cu­rece este período da História da civi­li­za­ção egíp­cia e as des­co­ber­tas arque­o­ló­gi­cas ainda não são sufi­ci­en­tes para o iluminar.

Por isso as inter­pre­ta­ções e opi­niões sobre a natu­reza de Akhenaton têm sido mui­tas ao longo das déca­das: os fac­tos rareiam, o mis­té­rio adensa-se…

Amarna

Amarna

Amarna

Amarna: ruí­nas de um sonho des­truído há mais de 3000 anos.

Quem foi real­mente este homem cujo des­tino ainda nos intriga, mais de 3000 anos depois? O que fez? Quão dife­rente era dos seus contemporâneos?

Sabemos, ou jul­ga­mos saber, que este faraó da 18ª dinas­tia, filho mais novo de Amen-hotep III e da sua esposa prin­ci­pal, Tié, ocu­pou o trono devido à morte do irmão mais velho — ele não estava des­ti­nado a ser um rei.

Sabemos, ou jul­ga­mos saber, que rom­peu com o pan­teão dos deu­ses egíp­cios em favor de um único deus, o deus-sol Aton, fun­dando um novo culto que alguns viram como per­cur­sor do Cristianismo, mais de 1300 antes do nas­ci­mento de Cristo.

Nos pri­mei­ros cinco anos rei­nou como Amen-hotep IV, mas depois mudou o nome para Akhenaton («o espí­rito atu­ante de Aton»). Para nós, mudar o nome de Fernando para Francisco pouco sig­ni­fi­cado tem a não ser, tal­vez, a com­pli­ca­ção buro­crá­tica que é fazê-lo; para um egíp­cio daquela época, o nome fazia parte do seu ser — definia-o de forma profunda.

Sabemos, ou jul­ga­mos saber, que aban­do­nou a cidade de Tebas e os seus sacer­do­tes mate­ri­a­lis­tas para fun­dar, na mar­gem ori­en­tal do Nilo, num deserto a mais de 300 qui­ló­me­tros a sul do atual Cairo, uma utó­pica cidade cha­mada Akhetaton («Horizonte de Aton»).

Os anos em que por lá viveu (até mor­rer) fica­ram conhe­ci­dos como o Período Amarna em refe­rên­cia ao nome atual da loca­li­dade onde o faraó man­dou erguer a nova cidade.

Akhenaton e Nefertiti

Akhenaton e Nefertiti (LeeReex @DeviantArt)

Sabemos tam­bém que a sua esposa prin­ci­pal foi a famosa rai­nha Nefertiti, cujo nome sig­ni­fica «a bela che­gou».

Akhenaton revo­lu­ci­o­nou a arte egíp­cia não só pela forma como a famí­lia real pas­sou a ser repre­sen­tada, como pelas cenas que os artis­tas eram auto­ri­za­dos a pin­tar ou escul­pir: nunca antes na his­tó­ria das dinas­tias um faraó se dei­xara ver como um pai de famí­lia dedi­cado e cari­nhoso, de mãos dadas com a rai­nha, pegando ao colo e bei­jando as filhas.

Deve ter sido um devoto com alma de poeta, pois escre­veu um hino em home­na­gem ao deus-sol que vene­rava e de quem se jul­gava o prin­ci­pal repre­sen­tante na Terra. Foi mais diplo­mata do que guer­reiro, pois pri­vi­le­giou o diá­logo com os rivais numa época em que o Egito atin­gira o expo­ente da sua força mas estava a ser acos­sado pelo ambi­ci­oso rei dos Hititas.

Para uma civi­li­za­ção que atri­buíra as suas vitó­rias mili­ta­res e o bem-estar do impé­rio à satis­fa­ção do deus Amon, agora des­pre­zado pelo faraó, o período da sua regên­cia poderá ter sido visto como uma des­graça que have­ria de arrui­nar o Egito e destruir-lhe as conquistas.

Devido à escas­sez de mate­rial arque­o­ló­gico, às repre­sen­ta­ções esti­li­za­das da sua figura física e à sua per­so­na­li­dade, Akhenaton passa então à his­tó­ria como heré­tico, revo­lu­ci­o­ná­rio que com­ba­teu o mate­ri­a­lismo opor­tu­nista dos ganan­ci­o­sos sacer­do­tes de Tebas, homem impo­tente, pai extre­moso, mulher dis­far­çada de homem, marido apai­xo­nado, rei forte, rei fraco, indi­ví­duo doente, louco, paci­fista, ide­a­lista, um santo, um demó­nio, o cri­a­dor do mono­teísmo, o per­cur­sor do Cristianismo, o men­tor de Moisés – têm exis­tido inter­pre­ta­ções para todos os gostos.

 

Visões de Akhenaton

A família real

O faraó Akhenaton (à esquerda) e a rai­nha Nefertiti com as filhas, sob os raios aben­ço­a­dos do deus-sol.

O escri­tor egíp­cio e Prémio Nobel da Literatura, o já fale­cido Naguib Mahfouz, escre­veu uma bela fic­ção explo­rando a incer­teza acerca da ver­da­deira natu­reza deste faraó: o romance «Akhenaton, o Rei Herege», coloca-nos no Egito após a morte do sobe­rano, acom­pa­nhando-o numa demanda pela ver­dade de um homem que ia «arrui­nando um império».

Com a ajuda do pai, um fun­ci­o­ná­rio influ­ente em Tebas, o jovem pro­ta­go­nista con­se­gue entre­vistar várias testemunhas-chave — pes­soas que con­vi­ve­ram de perto com Akhenaton, incluindo a rainha.

O nosso escriba, meio dete­tive meio jor­na­lista, con­fun­dido com visões tão dife­ren­tes e anta­gó­ni­cas do faraó, ató­nito perante o tes­te­mu­nho de quem o amava e o des­pre­zava, abstém-se de reve­lar ao pai a sua única cer­teza final: a ina­ba­lá­vel pai­xão que lhe des­perta a bela Nefertiti…

O Ancient Aliens defende a ideia de que Akhenaton foi um extra­ter­res­tre devido ao seu aspeto bizarro e invul­gar desa­pa­re­ci­mento, mas decla­ra­ções esta­pa­fúr­dias sobre o faraó heré­tico tam­bém se encon­tram na his­tó­ria da Egiptologia, sobre­tudo por moti­va­ções polí­ti­cas ou religiosas.

James Henry Breasted

Para o arqueó­logo e his­to­ri­a­dor norte-americano James Henry Breasted (1865–1935), edu­cado no Seminário Teológico de Chicago, Akhenaton foi «o pri­meiro indi­ví­duo da História»:

Era um homem ine­bri­ado de divin­dade, cujo espí­rito cor­res­pon­dia com uma sen­si­bi­li­dade e uma inte­li­gên­cia exce­ci­o­nal às mani­fes­ta­ções de Deus em si pró­prio, um espí­rito que teve força para dis­se­mi­nar ideias que ultra­pas­sa­ram o qua­dro de com­pre­en­são da sua época e dos tem­pos futuros.

Arthur WeigallArthur Weigall (1880–1934), egip­tó­logo inglês, jor­na­lista e mul­ti­fa­ce­tado autor de livros sobre o Antigo Egito, bio­gra­fias his­tó­ri­cas, guias turís­ti­cos, roman­ces popu­la­res, poe­sias e peças de tea­tro, refere um rei quase divino:

O pri­meiro homem a quem Deus se reve­lou como fonte de amor uni­ver­sal, isento de pai­xões, e com uma bon­dade que não conhe­cia res­tri­ções. Deu-nos, há três mil anos, o exem­plo do que deve ser um esposo, um pai, um homem honesto, do que um poeta deve­ria sen­tir, um pre­ga­dor ensi­nar, um artista seguir, um sábio crer e um filó­sofo pensar.

Como outros gran­des mes­tres, sacri­fi­cou tudo aos seus prin­cí­pios; a sua vida, con­tudo, mos­trou até que ponto estes prin­cí­pios eram impraticáveis.

Adolf ErmanO ale­mão Adolf Erman (1854–1937), pres­ti­gi­ado pro­fes­sor de Egiptologia e lexi­có­grafo, fun­da­dor da Escola de Egiptologia de Berlim mas expulso da sua facul­dade na Universidade de Berlim pelo regime nazi por ter «um quarto de san­gue judeu», sali­en­tou as carac­te­rís­ti­cas físi­cas do faraó – crâ­nio alon­gado, lábios dema­si­ado gros­sos, gran­des olhos, bacia larga, ven­tre inchado – em con­traste com uma enér­gica personalidade:

O jovem rei, que era fisi­ca­mente doente como mos­tram os seus retra­tos, era cer­ta­mente um espí­rito inqui­eto, que cum­priu a sua reforma deste o iní­cio com um zelo exces­sivo que só o prejudicou.

A doença de Akhenaton: eis um assunto recor­rente até hoje. A estra­nha apa­rên­cia do faraó, que o Ancient Aliens toma como sinal de des­cen­dên­cia ali­e­ní­gena, explica-se para alguns egip­tó­lo­gos com o auxí­lio da medicina.

O inglês E. A. Wallis Budge (1857 –1934), entre outros, achava que Akhenaton sofria de uma doença cha­mada Síndrome de Babinski-Fröhlich:

E. A. Wallis BudgeOs homens atin­gi­dos por esta doença apre­sen­tam com frequên­cia uma cor­pu­lên­cia aná­loga à de Akhenaton.

As par­tes geni­tais não estão desen­vol­vi­das e podem estar tão cober­tas de gor­dura que não são visí­veis. A adi­po­si­dade pode repartir-se dife­ren­te­mente con­forme os casos, mas há uma dis­tri­bui­ção das gor­du­ras que é tipi­ca­mente femi­nina, sobre­tudo nas regiões do peito, do abdó­men, púbis, coxas e nádegas.

 

Akhenaton defor­mado, Akhenaton reformador

Uma das con­sequên­cias para o doente que sofre deste mal é a inca­pa­ci­dade de gerar filhos – uma hipó­tese difí­cil de defen­der no caso de Akhenaton, que teve seis filhas com Nefertiti.

Bob Brier

Num docu­men­tá­rio sobre Akhenaton que vi recen­te­mente no Discovery Channel, o egip­tó­logo e apre­sen­ta­dor do pro­grama, o norte-americano Bob Brier, pro­põe a uma espe­ci­a­lista em Síndrome de Marfan que observe as repre­sen­ta­ções do faraó em busca de carac­te­rís­ti­cas reve­la­do­ras. Esta expli­ca­ção fora pro­posta em 1993 pelo egip­tó­logo Alwyn L. Burridge.

Akhenaton

Pormenor da mão de Akhenaton em ofe­renda ao deus-sol Aton

Este sín­droma é uma desor­dem do tecido con­jun­tivo carac­te­ri­zada por ano­ma­lias a nível esque­lé­tico, ocu­lar e car­di­o­vas­cu­lar, entre outras. Mãos e pés exce­ci­o­nal­mente lon­gos — arac­no­dac­ti­lia — podem ser sinais reve­la­do­res da muta­ção. A espe­ci­a­lista admi­tiu, com alguma relu­tân­cia, a exis­tên­cia de tais sinais nas repre­sen­ta­ções do faraó.

O Síndrome de Marfan tem a van­ta­gem de não afe­tar a capa­ci­dade de fazer filhos, como o de Babinski-Fröhlich, mas Brier aborda a hipó­tese com sau­dá­vel cau­tela: afi­nal quan­tos médi­cos acei­ta­riam comprometer-se com diag­nós­ti­cos fei­tos a par­tir de foto­gra­fias atu­ais, quanto mais em escul­tu­ras com mais de três mil anos?

As múl­ti­plas inter­pre­ta­ções pros­se­guem: o egip­tó­logo fran­cês Auguste Mariette (1821–1881) estava con­ven­cido de que o faraó era um pri­si­o­neiro cas­trado que as tro­pas egíp­cias tinham tra­zido do Sudão. Por razões que Mariette não expli­cou, teria che­gado ao poder e dado livre expres­são à sua doi­dice – uma hipó­tese quase tão plau­sí­vel como a do ali­e­ní­gena. Outro fran­cês, Eugène Lefébure (1838–1908), achava que Akhenaton era uma mulher mas­ca­rada de homem.

Sigmund Freud

Sigmund Freud revendo o manus­crito «Moisés e o Monoteísmo», Londres, 1938

Um ensaio de Sigmund Freud (1835–1939), con­si­de­rado o pai da psi­ca­ná­lise, judeu, ateu, publi­cado no ano em que mor­reu – «Moisés e o Monoteísmo» — defende que sal­mos con­ti­dos no Velho Testamento são copi­a­dos do hino ao deus-sol com­posto por Akhenaton.

Para Freud, Moisés era um egíp­cio, um alto dig­ni­tá­rio na corte do faraó que após a morte deste e o fra­casso do deus Aton no Egito pro­cu­rou dar con­ti­nui­dade à ideia de uma reli­gião mono­teísta, tomando os judeus como «povo eleito». Freud via em Akhenaton o impul­si­o­na­dor do prin­cí­pio da «exclu­si­vi­dade de um deus uni­ver­sal».

Quanto mais se lê sobre Akhenaton, mais a trama se adensa.

A ideia de mono­teísmo asso­ci­ada a Akhenaton sustenta-se sobre­tudo na des­co­berta de uma ins­cri­ção incom­pleta do pró­prio faraó, que con­si­de­rava os res­tan­tes deu­ses do Egito meras «está­tuas cri­a­das pelos huma­nos e, como elas, efé­me­ros, ao con­trá­rio do deus que se criou a si mesmo».

A visão depre­ci­a­tiva do faraó explica a ausên­cia de ima­gens divi­nas para o culto nos tem­plos e cape­las dedi­ca­dos ao Aton e à famí­lia real. E tam­bém nos ajuda a per­ce­ber por que razão as repre­sen­ta­ções da famí­lia real se vão tor­nando cada vez mais esti­li­za­das e menos rea­lis­tas: o rei e a rai­nha são obje­tos de culto jun­ta­mente com o pró­prio deus Aton, sim­bo­li­zado por um disco solar cujos raios ter­mi­nam em mãos, mãos que aben­çoam e con­ce­dem a vida ao casal monár­quico e à sua famí­lia – a eles e só a eles.

Não são ape­nas reis, mas os úni­cos inter­me­diá­rios entre um deus que é, ao mesmo tempo, pai e mãe, e todos os outros povos. É daqui que nasce o estilo artís­tico carac­te­rís­tico de Amarna — mas isto ficará para o post seguinte.

Akhenaton tem dado para tudo, como se viu; mas na segunda parte deste artigo os inte­res­sa­dos nes­tes assun­tos irão ver como a noção de um faraó extra­ter­res­tre nem sequer é uma teo­ria ori­gi­nal do Ancient Aliens, mas nas­cida de espe­cu­la­ções eso­té­ri­cas que come­ça­ram no final do século XIX. Preparem-se para conhe­cer uma pequena legião de cro­mos.

Eu penso, logo desisto
Este artigo come­çou com uma pequena explo­são de fúria. Por causa do pro­grama Ancient Aliens, estive quase a fazer ao meu tele­vi­sor aquilo que há uns anos um jor­na­lista ira­qui­ano ten­tou fazer a George Bush. Como pode um canal que se diz de História dar cober­tura a tanta desinformação?

Depois acal­mei e tomei a sen­sata deci­são de lar­gar o meu sapato ima­gi­ná­rio e come­çar a pre­pa­rar um artigo para o blo­gue: se não fosse a pate­tice do pro­grama, não teria che­gado a conhe­cer de forma mais pro­funda o mis­té­rio de Akhenaton e do Período Amarna – ainda assim, é pouco o que sei.

Fui ver a página ofi­cial no Facebook des­tes teó­ri­cos da treta, cons­ta­tei que tem mais de tre­zen­tos mil fãs e per­cebi por que razão o História se meta­mor­fo­seou no canal História da Carochinha. A igno­rân­cia é muito lucrativa.

Mas para aque­les que levam a sério o Ancient Aliens, umas con­si­de­ra­ções adicionais.

Giorgio A. Tsoukalos, o prin­ci­pal pro­du­tor do pro­grama, é um ex-culturista trans­for­mado em espe­ci­a­lista de arque­o­lo­gia, bio­lo­gia, antro­po­lo­gia, astro­no­mia e, sobre­tudo calha­lo­gia. Calhalogia é a ciên­cia que explica o que calhar e tira con­clu­sões ao calhas.

Para terem uma ideia de como estes inves­ti­ga­do­res e auto­res tiram as suas con­clu­sões, ima­gi­nem um Tsoukalos de um futuro muito dis­tante. O nosso hipo­té­tico teó­rico do século 60 debruça-se sobre um curi­oso e estra­nho arte­facto: uma revista de banda dese­nhada de A Guerra das Estrelas.

O Tsoukalos do futuro con­cluirá, em pri­meiro lugar, que a nossa civi­li­za­ção usou armas laser, sabres de luz e naves espa­ci­ais, domi­nou uma bizarra forma de ener­gia cha­mada Força e conhe­ceu nume­ro­sas espé­cies ali­e­ní­ge­nas na galáxia.

A segunda con­clu­são do génio será a de que todas estas coi­sas foram man­ti­das em segredo por uma mis­te­ri­osa orga­ni­za­ção secreta cha­mada George Lucas. São assim as teo­rias do Ancient Aliens.

 

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