Martelar os números para intrujar a realidade (social)…

30-08-2013 10:07

Martelar os números para intrujar a realidade (social)…

 
Os gregos passaram anos a martelar as contas para entrar no euro e com isso fizeram crescer o país, embora como um balão que depois rebentou. Tudo o que era bom crescia, tudo o que era mau baixava - artificialmente. Por aqui é diferente. O Governo também quer fazer boa figura, mas tem uma maneira particular de o conseguir. Vejamos.
 
 
 
Os cortes salariais no sector privado são uma realidade indesmentível. Perderam-se remunerações, prémios, subsídios e outros benefícios. O desemprego também está nas nuvens, as oportunidades minguaram, o que tem efeito direto no equilíbrio das relações contratuais - quem não tem medo de perder o emprego? - e, claro, nos rendimentos dos trabalhadores.
Apesar deste efeito dominó, o Governo deixou que o FMI publicasse em junho números que distorcem esta realidade e diminuem o esforço das pessoas. Contava ontem o Jornal de Negócios que pelo menos 20% dos contratos sofreram cortes, mas que os números enviados pelo Ministério do Trabalho ao FMI reduziram o valor para uns desprezíveis 7%. Porquê? A posição oficial do Governo é surpreendente: o FMI usou "números incompletos"; ou melhor, as estatísticas enviadas foram as pedidas pelo Fundo, embora usassem uma metodologia que, como se vê, não retrata a verdade como ela é.
3 perguntas:
Porque foram enviados pelo Ministério da Segurança Social números parciais, sabendo-se que eram parciais?
O Fundo foi avisado deste problema e não o corrigiu?
O que tinha Portugal a ganhar com este golo na própria baliza?
São dúvidas importantes que revelam a pobreza da relação entre o Governo e os credores do país. Ao aceitar, em silêncio obediente e envergonhado, que o FMI publicasse no relatório da 7.ª avaliação esta leitura falsa e ao não exigir a sua pública e imediata correção, o Governo credibilizou os números internacionalmente. Embora haja outras fontes de informação, o impacto do ajustamento nos salários foi, portanto, diminuído aos olhos do mundo inteiro, abrindo caminho para que se conclua que a penosa desvalorização interna - a alternativa à desvalorização da moeda... - ainda não fez todo o seu glorioso caminho. Ou seja, a procissão ainda vai no adro.
O problema é de confiança política. Como não há confiança, sobra terreno para a especulação. Será que para Passos Coelho é um sinal de competência mostrar à troika que, afinal, apesar das manifs, os salários caíram menos do que na verdade caíram e devem reduzir-se mais? Não posso acreditar nisso. Seria cruel, seria ter as prioridades subvertidas. O que este caso revela é a habitual falta de jeito e a subserviência de Portugal - histórica, sim, mas hoje especialmente saliente. Houve um erro? Bastava uma declaração simples do Governo: o FMI enganou-se. Mas não: o ministro encolheu-se para não indispor o patrão. A culpa é toda nossa, claro, do honrado Portugal.

"Se os números não confirmam a teoria então é porque os números estão errados". Esta ironia é em geral usada nos meios académicos para reduzir ao absurdo a defesa de uma tese que se revela manifestamente errada. Mas parece ter sido transformada em regra no caso dos dados salariais desaparecidos na folha de cálculo que estava incompleta. Era fundamental que o FMI passasse a respeitar a realidade e procurasse outras razões para o desemprego em Portugal que não se limitassem aos salários. Ou corremos o risco de levar bastante mais tempo a ter menos desemprego.

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