Ilegalidades de Verão

11-08-2013 12:03

Ilegalidades de Verão

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As Duas Manas, maljeitosas, pesadonas, ancas largas, com a pintura a descascar, assaltam-me o pensamento quando me aproximo do Algarve, para as férias de Verão. Penso sempre nelas com uma mistura de sentimentos. Por um lado, desejo que continuem vivas, a ocupar o lugar do costume no ancoradouro de Santa Luzia. Isso seria, para mim, sinal de que a pequena localidade piscatória, à beira da Ria Formosa, continua a dormir ao sol e que as minhas férias irão ser tão boas como as anteriores, entre passeios de barco, banhos de mar, cervejas ao fim da tarde e conversas intermináveis com os amigos do costume, à luz da lua, em tascas perdidas no barrocal.

Por outro lado, à medida que a Via do Infante fica para trás e o cheiro a esteva e a maresia inunda o ar, sou assaltada pelo desejo profundo de que, nos meses de Inverno, as Duas Manas tenham entregado a alma ao criador, levadas por uma maré mais forte, ou que alguém com bom senso tenha decidido pôr um fim aos seus dias. É claro que não estou a falar de pessoas, mas sim de um barco, uma chata mais propriamente, pequeno barco a remos com o fundo chato, daí o nome. É altura de abandonar o plural, uma vez esclarecido o propositado equívoco, agora passo a escrever “a” Duas Manas.

Em finais de Julho, quando cheguei ao ancoradouro de Santa Luzia, lá estava a Duas Manas a baloiçar orgulhosamente ao sol, ao lado de O Atum, do Fruto do Amor, da Sãozinha Machado, de A Mala, do Machinho, do Outro Janota, do Bruno Miguel, tudo nomes de chatas e traineiras que reencontro com prazer ano após ano.

A Duas Manas ostentava um melhoramento visível: os encaixes dos remos, de madeira podre, tinham sido substituídos, agora são de metal, parecem mais sólidos. Pensei, pelo menos talvez já não nos aconteça o mesmo que no ano passado, quando a família toda, embarcada na Duas Manas, regressava ao cais, com o Fernando remando furiosamente para contrariar a força da maré vazante, e um remo ficou inutilizado, porque o encaixe se partiu. Foi uma aflição. A chata começou a ser puxada a toda a velocidade em direcção ao mar, isto com uma criança a bordo, além da mãe e respectivos avós e toda a parafrenália necessária para um dia passado na praia.

A Duas Manas, que é pesada, como já disse, seguia sem governo ao sabor da maré viva dessa tarde do Verão passado, quando uma lancha da Polícia Marítima se cruzou connosco. Primeiro, os dois polícias que seguiam a bordo fingiram que não nos viam, apesar de eu e a minha filha esbracejarmos furiosamente e gritarmos a pedir ajuda (os homens raramente dão parte de fracos).

Não havia coletes salva-vidas a bordo, a corrente puxava-nos a uma velocidade cada vez maior, o ancoradouro ficara para trás e era só água e mais água até às Quatro Águas, como se chama o ponto de encontro da Ria Formosa com o Rio Gilão, junto à abertura para o mar. Confesso que esse foi, para mim, um momento de pânico, mas durou pouco, pois vi a lancha dar a volta e rumar ao nosso encontro. Os polícias atiraram-nos um cabo, puxaram-nos de regresso ao ancoradouro, e, antes de se irem embora, pregaram-nos um valente um sermão : que éramos inconscientes por nos fazermos transportar num barco sem um mínimo de segurança, que a Duas Manas era um destroço, sem existência legal, sequer, que as pessoas reclamavam quando havia desastres mas a culpa era delas, etc., etc… Não respondemos, não havia nada a dizer, tudo era ilegal, a chata, a nossa presença nela e os motivos pelos quais a usávamos diariamente, e que passo a explicar.

Temos um pequeno barco a motor onde nos transportamos todos os dias entre Santa Luzia e a praia. Mas não podemos deixá-lo no ancoradouro, que está reservado aos pescadores pelo Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos (IPTM). Não que isso seja claro para toda a gente, uma vez que o ancoradouro está cheio de barcos que parecem tudo menos de pesca. Mas, quando perguntamos a qualquer dos homens (que podem ser pescadores ou não, porque aquele que tinha mais ar de pescador está actualmente preso por tráfico de droga) que deambulam pelo cais de Santa Luzia, a resposta é invariável: “Nem pensar, isto aqui é só dos pescadores, o IPTM é que manda. E olhe que os fiscais andam sempre aí, as multas são bem pesadas”.

Estas são as frases mas longas que até hoje ouvi da boca dos frequentadores do cais, pouco dados a conversas com estranhos, sempre pronunciada com um ar de irreprimível satisfação que me faz desconfiar de que algo está errado neste cenário. O conselho familiar é que eu não queira saber mais nada e, como está calor,  é o que faço. Mas ninguém me tira da ideia de que algo estranho se passa aqui.

Voltando ao que estava a explicar: uma vez que não podemos amarrar o nosso barco ao ancoradouro, temos que alugar uma poita, algo pesado, que pode ser um bloco de cimento, assente no fundo, ao qual se ligam cabos que servem de amarração aos barcos. As poitas – ilegais, é claro – são alugadas a pescadores, geralmente os donos das embarcações usadas para o transporte a partir do cais.

Portanto, o dono da poita é também proprietário da Duas Manas e é nela que o Fernando rema algumas dezenas de metros até ao nosso barco, prende as duas embarcações uma à outra, regressa ao ancoradouro com a chata, deixa esta, embarca a família e ruma finalmente à praia. Manobra complicada que se repete inversamente no regresso.

Tudo ilegal, mas tudo bem português, a chata, a poita, nós, o pescador, o cais, o IPTM. Ah, um aparte, o nosso barco está legalizado, paga impostos, tem coletes salva-vidas e extintores de incêndio dentro do prazo. Caso contrário, leva uma multa pesada.Mas que o Verão continue assim, é o que eu desejo!

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